Por José Sarney

O tema “reforma” esteve sempre presente nos debates políticos. Passei 54 anos no Parlamento e não teve uma legislatura em que não houvesse alguma coisa para reformar.

A Reforma Agrária era o tema quente, e ser adepto dela valia um certificado de comunista. Discutindo isso com Milton Campos, ele me advertiu: “Olha, Sarney, aqui sempre tem alguma coisa para reformar e, quando as reformas forem feitas, não precisamos mais de reformas”.

Milton Campos foi um dos maiores políticos que conheci e um dos maiores que tivemos. Dele, que cultivava uma ironia fina, contava-se muitas histórias. Quando era governador de Minas, houve uma greve de ferroviários em Divinópolis, onde havia uma grande concentração de trens que cruzavam Minas. O caso alcançou uma repercussão grande. O secretário do Interior foi a ele e disse que, para evitar maiores problemas e agitação e para conjurar a greve, deviam mandar um trem com soldados da Polícia Militar. Milton Campos, ao receber a sugestão, respondeu com a seguinte ordem: “É melhor mandar o trem pagador”.

Muitos parlamentares são notórios por sua agilidade e rapidez de raciocínio. O mais famoso desses era Winston Churchill. Entre nós, outro grande mordaz era Carlos Lacerda. O deputado Baby Bocaiuva, excelente parlamentar, resolveu apartear Lacerda e interrompeu um discurso seu: “O senhor só vem aqui para insultar, censurar, condenar…”. Carlos Lacerda retrucou: “E aí vossa excelência vem colocar pó de mico no meu discurso…”.

Mas a surpreendente e grande lição que ouvi do Milton Campos — grande orador parlamentar — foi esta: “Sarney, depois de longos anos no Parlamento e frequentando sempre a tribuna, cheguei à conclusão de que o Congresso não é lugar de falar, é lugar de ouvir. Hoje estou mais ouvindo do que falando. E o que ouço não é de bom-tom para meus ouvidos”.

Calcule se Milton Campos estivesse no Parlamento hoje, que conselho daria? Talvez só restasse uma posição: entrar na Ordem dos Cartuxos, a mais radical já surgida na Igreja, fundada por São Bruno com o apoio de seu discípulo, o Papa Urbano II. São Bruno tinha como base de sua Ordem o silêncio total, a solidão só rompida para as celebrações do culto divino. Tudo isso para ouvir Deus, no silêncio que permite que O escutem no mais profundo do nosso ser.

Muito costurados entre humor e reforma nos arriscamos a fazer uma reflexão sobre os nossos dias. O Parlamento é diferente hoje, como diferente é fazer política. Mas são necessárias educação e boas maneiras para que a política possa ser lugar de soluções, são necessários diálogos e silêncio para olhar numa bola de cristal, para vislumbrar o futuro, que hoje nos parece uma manhã do antigo fog londrino ou um habub desses que se levantam agora nas terras secas do cerrado, lavradas na espera da chuva.

Foto: Carlos Terrans

Por; Zeca Soares

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